Entrevista com David Schilter, editor da revista letã Kuš!

10 de Outubro de 2007

Como colecionadores de figuras de ação, e também de quadrinhos (com certeza uma grande parte dos leitores do Polegadas), a maioria de nós não consegue pensar nem mesmo por um segundo como seriam as nossas vidas sem essa avalanche de cultura pop que nos cerca todos os dias.


Há inúmeras reclamações sobre a distribuição setorizada e falta de acesso ao material publicado por aqui, aliás, o que não falta nos grupos de debate sobre revistas em quadrinhos é reclamação (sim, os nerds são muito exigentes e não me excluo do grupo não). Agora tentem imaginar um país que não tem absolutamente nenhuma HQ. Sim, é difícil de imaginar, mas existe. É o caso da Letônia, ex-república da antiga União Soviética (URSS), que teve sua independência apenas em 1991.


Felizmente, o suiço David Schilter pintou na área para mudar completamente esse cenário. Ele reuniu alguns artistas de diferentes países e criou a HQ alternativa Kuš! (que em português significa Cala a Boca!).Bancando a primeira edição da revista do próprio bolso, David, o editor da revista, não desenha e nem escreve as histórias.



Kuš #1 (True Stories) e Kuš #2 (Love Hurts)


Kuš! já teve dois números lançados, que foram distribuídos gratuitamente na Letônia, e tem até o quinto planejado.    


A equipe do Polegadas procurou David em Riga, capital da Letônia, e fez uma entrevista que você confere agora, onde ele nos conta um pouco mais sobre o processo de criação do projeto Kuš!, e sobre seus planos futuros.



Por favor, me conte um pouco sobre você.


Meu nome é David Alexander Schilter e tenho 26 anos. Sou formado em direito, e atualmente trabalho como tradutor free lance, edito a Kuš! e faço camisetas. Moro em Riga, na Letônia.


No entanto, você nasceu na Suíça. Qual foi o seu primeiro contato com a Letônia? Como o projeto Kuš! nasceu, e  por que a Letônia?


Dois anos atrás eu fiz um intercâmbio de um ano na Lituânia (outro país báltico), e lá eu conheci a minha parceira da Letônia. Então eu a visitei umas duas vezes. Depois de terminar os meus estudos na Suiça, eu decidi me mudar para a Letônia, onde eu fiz um estágio no Goethe Institut (escola de alemão que tem franquia em vários países, inclusive no Brasil) e comecei a trabalhar como free lancer. Isso não estava sendo satisfatório pra mim, e eu pensei em o quê mais poderia fazer. Como nos Bálticos você não consegue achar nenhuma revista em quadrinhos (há apenas dois álbuns traduzidos do Tintin e algumas revistas do Mickey Mouse, além de uma coleção de Contos Letões publicada há 20 anos atrás, e um gibi do Batman lançado há mais de 10 anos), eu tive a idéia de publicar uma HQ.


Qual foi a primeira revista em quadrinhos que você leu?


Isso foi na minha infância e provavelmente foi Asterix, mas não consigo me lembrar. Com certeza, eu li bastante Tintin e Mickey Mouse na minha infância. Graças ao ótimo festival local de quadrinhos, o Fumetto (www.fumetto.ch), eu logo comecei a ler muitas revistas alternativas.


Por que o nome Kuš!?


Kuš! Significa “Cala a Boca!”, então a idéia do nome é calar a boca e ler. Eu também acho que soa muito bem, e todas as vezes que as pessoas falam uma para as outras para calarem a boca, estão nos divulgando.


Quanto tempo você levou para terminar o projeto?


Eu espero que o projeto ainda não esteja terminado, nós ainda estamos desenvolvendo idéias. Mas desde o surgimento da idéia, até a publicação do primeiro número, levamos aproximadamente sete meses.


Qual é o tema principal de Kuš!?


Cada número tem o seu próprio tema, nós começamos com “True Stories” (Histórias Verdadeiras), que foi uma coleção de histórias autobiográficas, e o segundo número foi “Love Hurts” (O Amor Machuca). Em breve nós publicaremos “Human Animal” (Animal Humano) e depois disso “Latvia” (Letônia). O comum entre todos os números é que temos uma coletânea de histórias curtas (1-8 páginas), de diferentes artistas alternativos.


Conte-me um pouco sobre a experiência de trabalhar com todos esses artistas.


Eu não sei se poderia chamar isso de “trabalhar”, já que eu me comuniquei com eles na maioria das vezes por e-mail. Eu apenas os convidei para desenhar alguma coisa para um tema específico, determinei os prazos e eles apareceram com ótimas histórias. Algumas vezes, eu pedi para republicar histórias antigas. Mas no geral foi uma cooperação muito boa com os artistas.


Que tipo de público você espera que leia o seu trabalho?


Como os quadrinhos são algo de novo na Letônia, nós conquistamos principalmente um público jovem, provavelmente entre 15 e 25 anos, que têm a cabeça aberta e são interessados em arte.


Como está sendo a resposta do público e dos patrocinadores?


A resposta do público foi ótima, nós recebemos inúmeros e-mails e contribuições de nossos leitores. A imprensa e a TV da Letônia se interessaram pela Kuš!, no entanto, a resposta dos patrocinadores não tem sido grande o suficiente ainda. O mercado de jornais e revistas na Letônia é enorme, então é muito difícil de conseguir anunciantes.


Qual é o seu objetivo principal com o projeto Kuš!?


Nosso objetivo principal é promover a cultura de quadrinhos na Letônia, e entreter os letões com material de alta qualidade. Com isso também esperamos incentivar os letões a fazerem quadrinhos. Seria bom também ganhar algum dinheiro com isso, mas parece um pouco utópico.


Os dois primeiros números foram distribuídos gratuitamente, como será daqui pra frente?


Essa é a grande questão do momento. Nossa terceira edição está pronta para impressão há um mês, mas nós não conseguimos patrocinadores o suficiente ainda para imprimi-la. Nós estamos pensando em vender a Kuš! por um preço razoável nas bancas de jornal, mas é difícil. A gráfica quer fazer apenas 500 cópias, mas nosso objetivo é de pelo menos 5.000. Publicar quadrinhos na Letônia é muito difícil.


Quais HQs você lê hoje em dia?


Principalmente quadrinhos alternativos, eu não conheço nada sobre o cenário mainstream. Então os meus autores favoritos são: Joan Sfar, Lewis Trondheim, Christophe Blain, David B, Mawil, Julie Doucet, Marijane Satrapi, Chester Brown, Art Spiegelmann, Charles Burns, Adrian Tomine, Irmãos Hernandez, José Muñoz e o bom e velho Winsor McCay. Eu também gosto de ler antologias de diferentes artistas como Stripburger, Cestbon, Kramers Ergot e Mome.



Após a entrevista, o editor David Schilter entrou em contato com o Polegadas para nos colocar a par da situação que envolve o lançamento da terceira edição da Kuš!. Como ele estava procurando outras opções para o financiamento da revista, entrou em contato com a empresa que faz a distribuição de revistas para as bancas de jornal. E eis a resposta que ele obteve:


“Nós não queremos fazer a distribuição, pois na Letônia todo mundo acha que quadrinhos são apenas para crianças. Além disso, temos medo de sermos processados por vender a Kuš!, pois é violenta e pornográfica. A única opção é colocar a Kuš!  dentro de  sacos plástico, e vende-las junto com as revistas para adultos.”


O editor não tem apenas a árdua tarefa de promover a cultura dos quadrinhos na Letônia, mas também tem que encarar o desafio de abrir a cabeça de todo um povo. Ele já avisou que vai aceitar, e que talvez vender a Kuš! na seção de revistas adultas seja ainda mais atraente.


O Polegadas agradece David Schilter pela entrevista, que é um exemplo para os que acham que é difícil fazer quadrinhos no Brasil. O trabalho dele é revolucionário, e só podemos esperar que um dia a Kuš! chegue traduzida para os nossos leitores, assim como o trabalho de nossos artistas seja divulgado na Letônia.


 





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